A pintura começa do nada, a tela branca. Estar frente a frente com esse espaço é um desafio. Aceitar o desafio é outro assunto. Começando sempre do “marco zero”, entro nesse campo onde me permito perder. Aos poucos, o trabalho vai adquirindo forma e direção.
Vou me deixando ser levada pelas pinceladas. O pincel muitas vezes é abandonado, dando espaço à mão-pincel, que quer deslizar e sentir a lisura da tinta ou a textura da terra. O gestual indica a direção. A materialidade me atrai. Aí tudo é permitido: folhas, ferro, linhas, carvão, lâminas, cobre, feltro, costuras e achados, sempre impregnados de rastros da vida cotidiana.
É carne.
Matéria.
Prazer.
da série lamparinas e lampiões | tinta vinílica sobre papel canson | 65x46cm | 1985
…eu trabalhava sempre com uma imagem referencial.
Ao usar o papel como suporte, passei a não me preocupar com o acerto final.
O não preocupar com o acerto, me deu a oportunidade de adentrar mais nas cores e formas.
Fase que começei a explorar também a materialidade.
Alí tudo era permitido.
Vivi um deleite na pintura, sentimento que ainda carrego quando estou exercendo essa atividade.
Foi um salto na minha forma de pensar.
Um periodo de aprendizado e grandes descobertas
modelos | técnica mista sobre papel canson | 85x60cm | 1988 – 1989
“A pintura é pintar
pintar o gesto, não como representação
mas como captação de sua energia
seu movimento
seu momento”
Aqui, minha figuração começou a
desaparecer.
O que me levou a isso foi a
fala de um mestre:
“quando peço um desenho, quero que vocês me tragam cinquenta, cem desenhos e não um.”
Levei isso ao pé da letra.
Desenhei 250 vezes a mesma jarrinha. E ela deixou de ser jarra.
sem título | tinta vinílica sobre papel canson | 40x60cm | 1988
sem título | técnica mista sobre papel artesanal | 65x46cm | 1990
Um chamado às transgressões.
Uma provocação por outro tempo
pedras | técnica mista sobre papel canson | 50x40cm | 1986
A MATERIALIDADE
ganhou foco.
da série materialidade na pintura | corda de algodão, óleo e vinílica sobre lona | 200x150cm | década de 1990
Rasgar o papel. Rasgar o tecido. Rasgar a borracha. Rasgar a vida.
RASGAR.
O som do rasgado que invadia o ateliê me interessava.
Todo pedaço tinha um significado.
Hoje, preocupo com a terra e com a Terra.
Li isso em algum lugar:
AMAR E MUDAR AS COISAS.





















































